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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Morre Nelson Mandela. VEJA

Morreu nesta quinta-feira, 5, o maior ícone da luta contra o apartheid. Nelson Mandela, de 95 anos, estava internado com infecção pulmonar em um hospital militar de Pretória. Em 1993, ele levou para casa um prêmio Nobel da Paz – dividido com o último presidente sul-africano branco, Frederik de Klerk. No ano seguinte, tornou-se o primeiro presidente negro da África do Sul.
Para muitos analistas, Mandela foi o único líder capaz de conduzir pacificamente o país rumo à democracia racial após meio século de governo segregacionista. Para a presidência, ele levou o respeito conquistado durante a luta contra o apartheid, que lhe rendeu 27 anos de prisão.
Rolihlahla Mandela nasceu em 1918 na pequena vila rural de Mvezo, na atual Província de Eastern Cape. O menino tinha sangue real, era descendente dos chefes Tembu, da nação cossa. Foi criado para ser líder tribal. Na infância, caçava passarinho, tomava conta de gado e brincava descalço, lutando contra outros garotos com pedaços de pau. Segundo Tom Lodge, um de seus mais importantes biógrafos, nessa época aprendeu a lição que guiaria sua ética pessoal por toda a vida: Mandela aprendeu a derrotar seus inimigos sem humilhá-los.
Só aos 7 anos, depois que entrou para uma escola britânica, é que ganhou o nome de Nelson. “Minha professora no primário exigiu que eu tivesse um nome cristão e decidiu que eu me chamaria Nelson”, lembrou Mandela, anos mais tarde. O pequeno nobre Tembu, do clã dos Madiba – nome pelo qual Nelson seria chamado pelos mais íntimos até o fim da vida -, frequentou as escolas britânicas de Clarkebury e Healdtown. Em casa, vivia com um pai polígamo, que tinha quatro mulheres e nove filhos.
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A fusão da tradição africana com o civilismo britânico criou um dos maiores líderes do século 20. Em geral, historiadores prestam pouca atenção à influência que tiveram as ideias colonialistas sobre os líderes nacionalistas da África. Mandela, apesar das raízes africanas, teve a vida tocada por conceitos ocidentais, como os direitos humanos e as obrigações civis. Foi equipado com esse arsenal ético que ele derrotou o apartheid e foi alçado à condição de mito.
A força moral e política de Mandela vinha da crença de que gestos diários de cortesia, consideração e generosidade são capazes de atenuar conflitos. Essa convicção moldou um jeito gracioso de fazer política que, apesar do profundo conservadorismo, foi a única fórmula capaz de conduzir pacificamente a África do Sul à democracia.
Poucos tiveram o status messiânico de Mandela. Profundamente influenciado pelo pacifismo de Mahatma Gandhi, que também viveu na África do Sul, ele se tornou um símbolo global de paz e reconciliação.
Na presidência, Mandela se viu diante de decisões políticas difíceis. Surpreendentemente, seu governo ficou marcado pela disciplina fiscal, administrativa e um forte controle de gastos públicos, desagradando a muitos aliados. Sob seu comando, o governo levou água potável para zonas rurais, construiu 1 milhão de casas populares e investiu em escolas de bairros negros. Mas o desemprego não cedeu. A esquerda responsabilizou os excessos neoliberais de sua política econômica. Para os empresários, a culpa era das reformas sociais, da nova legislação trabalhista e da exigente política de afirmação racial.
Na área social, Mandela marcou pontos com a Comissão da Verdade e Reconciliação, que fez um doloroso escrutínio do passado. Seu relatório desagradou a políticos dos dois espectros, mas satisfez a maioria da opinião pública. A Constituição democrática foi promulgada em 1996 e a paz com os zulus, selada com a inclusão de líderes do Partido da Liberdade Inkhata no governo.
Idealista. Em temas internacionais, Mandela foi idealista, adotou como princípio a defesa dos direitos humanos e a lealdade àqueles que o ajudaram na luta contra o apartheid. Só que nem sempre é possível juntar as duas coisas. Por isso, sua política externa foi cheia de incoerências. Como nunca esqueceu os velhos amigos, Mandela defendia os regimes de Cuba, Líbia, Síria e Zimbábue.
Ele não quis se reeleger e deixou o governo com aprovação de 80%. Diferentemente da ostentação de outros líderes africanos, viveu de maneira simples. Doava um terço do salário para uma fundação de caridade criada com o dinheiro do Nobel. Comprou uma casa em Houghton, Johannesburgo, onde continuou a dobrar o próprio pijama até o fim da vida.